Resenha | O Homem de Giz

Em 1986, Eddie e os amigos passam a maior parte dos dias andando de bicicleta pela pacata vizinhança em busca de aventuras. Os desenhos a giz são seu código secreto: homenzinhos rabiscados no asfalto; mensagens que só eles entendem. Mas um desenho misterioso leva o grupo de crianças até um corpo desmembrado e espalhado em um bosque. Depois disso, nada mais é como antes.

Em 2016, Eddie se esforça para superar o passado, até que um dia ele e os amigos de infância recebem um mesmo aviso: o desenho de um homem de giz enforcado. Quando um dos amigos aparece morto, Eddie tem certeza de que precisa descobrir o que de fato aconteceu trinta anos atrás.

“O que nos molda nem sempre são nossas conquistas, mas nossas omissões. Não as mentiras; simplesmente as verdades que não contamos. ”

O Homem de Giz

No Goodreads e no Instagram eu brinquei que o Homem de Giz é “It do Stephen King se tivesse 900 páginas a menos”, o que não é mentira… mas também não é uma análise justa da obra. É inegável que a autora se inspira muito em Stephen King, porém ela ainda consegue ter sua própria escrita e apresentar sua narrativa de forma original.

É muito interessante a maneira que C.J. Tudor consegue separar bem a narração do Eddie adulto da do Eddie criança sem que eles acabassem parecendo pessoas completamente diferentes, ou que o adulto parecesse criança e a criança parecesse adulto. 

Um exemplo dessa habilidade se vê pela forma como o Eddie criança descreve os machucados da Nicky pela primeira vez:

“…Naquele dia, ela estava usando um vestido que lhe caia bem . Era longo e florido. Cobria alguns machucados nas pernas. Nicky estava sempre machucada. Acho que nunca a vi sem pelo menos um hematoma marrom ou roxo. Certa vez, chegou a ficar com o olho roxo.”

O Homem de Giz

Aqui o leitor consegue entender nitidamente que Nicky sofre abusos em casa, mas através da narrativa também conseguimos ver que o Eddie de 12 anos ainda é inocente demais para se dar conta disso.

Aproveitando o gancho, outra coisa que se destaca em “O Homem de Giz”, é o fato dele abordar temas muito mais pesados do que o seu sucessor, “O que aconteceu com Annie”. Temos aborto, abusos físicos e sexuais, hipocrisia religiosa e subversão de alguns papéis de gênero, e isso está tão intrínseco na história que ocorre de maneira muito natural e nos leva a pensar e refletir um pouco sobre esses assuntos.

Outro diferencial que me faz achar esse livro um pouco melhor do que “O que aconteceu com Annie”, é a constante dúvida sobre se há ou não um elemento sobrenatural na história. Várias vezes eu fiquei arrepiada lendo esse livro, sem saber o que seria pior: ser o capeta ou ser tudo “real”.

“O homem de Giz” também é um ótimo exemplo de setup e payoff. Para quem não conhece esse termo, ele é muito bem definido através dessa frase do Anton Chekhov:

“Se, no primeiro capítulo, você disser que há uma arma pendurada na parede, deve ter certeza de que ela será usada mais adiante na história.”

Anton Chekhov

Para não dar spoilers do. que pra mim foi o melhor mistério do livro, digamos que a descoberta do destino de uma certa coisa me deixou chocada e é lindo ver como isso foi cuidadosamente planejado e apresentado no decorrer da obra.

C.J. Tudor é uma autora muito competente e que escreve narrativas que te prendem. Mal posso esperar para ler “As outras pessoas” e “Garotas em Chamas”.

Dito tudo isso, minha única ressalva é um pequeno furo na história que dificilmente passará despercebido, porém é muito difícil expressar sem acabar dando alguns spoilers. Para aqueles que não leram, parem imediatamente que daqui para baixo tem um pequeno spoiler.

“Ser adulto é apenas uma ilusão. No final das contas, não tenho certeza se algum de nós realmente cresceu. ”

O Homem de Giz

Nota:

Avaliação: 4 de 5.

Não fica nítido quem desenhou ou homens de giz na igreja, nem quem fez as asas no reverendo. Podemos facilmente supor que foi Nicky, mas apesar da narrativa fornecer indícios suficientes para acreditar que foi ela quem “desenhou” as asas, o mesmo não pode ser dito sobre os homens de giz. Poderia ser uma forma de macular a igreja que o reverendo tanto adorava? Uma vingança? Pode, mas não faz sentido ela ter escolhido homens de giz especificamente, é preciso forçar um pouco a barra para aceitar essa hipótese. O que você acha? Aceito teorias nos comentários, esse detalhe está me enlouquecendo!

4 respostas a “Resenha | O Homem de Giz”

  1. Cheguei a cogitar que num momento de sonambulismo não relatado no livro, Eddie tenha feito os desenhos na igreja. Relacionei com o fato de só quem frequentava a casa de Hoppo saber onde ficavam as chaves e, provavelmente após fazer isso, deixou as portas abertas facilitando a ação do pai de Hannah e da própria Hannah que pode ter feito as asas após achar o pai desacordado. Mas acho que viajei demais nessa teoria. Kkkkkk

    Parabéns pelo blog ❤️

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  2. Nicky *

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  3. Acho q pode ter sido Ed até então por ele ter ouvido a frase do professor sobre anjos, e também pode ter sido ele ter feito os bonecos, e o “confesse” pode ter sido pela cabeça ou tanto pelo ataque a igreja e ao próprio Rev. Martin ou pela Cabeça, e Nicky fez a tatuagem em “homenagem” dps q soube oq aconteceu. ME AJUDEM TO TENTANDO ENTENDER 🥹

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